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1+1 é 2?

Por: Allyne Oliveira de Lima


Todas as vezes que busquei exatidão, explicação lógica ou os “porquês” das intrigas e conflitos em meus relacionamentos eu caminhava para ainda mais distante de soluções que pareciam óbvias para muitos. O que quero dizer com isso? Que as confusões se apresentavam a partir de duas pessoas e ficavam cada vez maiores, quanto mais cresciam menos eu enxergava o desfecho.


Compreendo que o excesso de culpa, vitimismo e coitadismo tira-nos a autorresponsabilidade, o que leva muitos de nós a olhar para fora, isso chega a um campo limitado de visão, carregado de medo, ódio, insegurança e amor cego que turvam e impedem o encontro com o mais, com o outro fora e os outros dentro (pai e mãe por exemplo). Essa dança da vida não é feita a dois, definitivamente.


Bert Hellinger demonstra em diversos dos seus livros a seguinte ideia “ não há dois sem três, diz o ditado. Por quê? De um mais um chega-se ao três. O que é o número três aqui? Para um casal, o três é o filho. O três é o número da plenitude” (2019, p.171). Todos somos filhos, portanto, todo 1 é no mímino 3.


Contudo, em um relacionamento a dois, o encontro é a dois inicialmente, mas nessa conta 1+1 pode ser igual a 6 ( Parceira + Pai+ mãe) + ( Parceiro+ pai+ mãe), no decorrer da jornada o casal pode/deve subtrair, é primordial a renúncia ao amor infantil pelos pais para evitar que se multipliquem os emaranhamentos. Porém, entendo que para caminharmos em direção ao êxito podemos internamente tomar esses pais como fonte de vida, fortalecendo a nós mesmos para que o relacionamento seja possível, fluido, leve, nesse caso há adição e até multiplicação em forma de filhos, prosperidade e transbordo.


Ainda sobre essa questão de quantos somos, Shubert diz: [...] em um olhar ampliado sabemos que o pai tem os seus pais e a mãe também aos seus pais. Ou seja, a partir de nós, filhos, há uma sequência de familiares que nos precedem e graças aos quais estamos aqui agora presentes (René Shubert 2020).


Nesse sentido, somos muitos e quando juntos somos um só (Tribalistas). Por isso, esses muitos que habitam em nós nos presenteam com informações na nossa alma, que reverberam em bençãos e também maldições, conflitos internos e externos. É certo que as dificuldades nas relações humanas servem para a evolução, mas quando não se entende isso, uma das saídas é sofrer, o que é a maioria ainda não reconhece é que o sofrimento é um lugar de observação, para entrar em contato com ele rumo a cura é preciso compreender para onde ele está te levando.


É importante considerar que o percurso que fazemos nesse caminhar na própria história é atemporal, mudam-se os personagens, mas as histórias se repetem. “A própria natureza, inconsciente e indiretamente, prepara o caminho através do fenômeno da transferência (FREUD in: Jung p. 15).


Somos chamados a tomar consciência das sombras, entrar em contato com a dor/sofrimento, e, nada melhor que a relação com o “outro” para oportunizar esse encontro. Quantos outros existem em um só outro? Essa conta não fecha, veja que enquanto não tomamos consciência disso, exigimos dos parceiros o que não recebemos dos pais e esse movimento é inconsciente. Caso não resolvermos essa equação vamos complicando a conta para que alguma geração seguinte possa solucionar e continuar (respire).



A vida nos proporciona encontros, nesses encontros nunca estamos sozinhos, o “outro” também não está sozinho. Nosso 1 está cheio, são experiências, valores, justificativas, desculpas, dores, traumas, lamentações, nossa malinha cheia de razões, talvez por isso, não conseguimos dar ouvidos, ou mesmo, ver com nossos olhos o que tem para além do outro que também chega com suas próprias razões.

Percebo que esse olhar ampliado que nos leva a uma equação infinita é para poucos, são os curiosos, fortes, corajosos, ousados, aqueles que se envolvem na busca pelo indivíduo em si transformado/transformando. Essa especialização e aprofundamento ocorre no contato com o outro.


Preteciosamente, apresentei aqui uma conta com múltiplas possibilidades, a equação do amor, cheia de complicações. Sendo assim, podemos encontrar diferentes soluções para uma equação muito semelhante a outra, a cada solução é possível fazer uma nova conta, mais complexa e com mais elementos e nesse momento, o que menos importa é o desfecho, aproveite tudo que o caminho lhe oferecer. Partimos de 1+1 e todos os dias somamos, diminuímos, dividimos e multiplicamos.

Referências:

Hellinger, Bertt.A Simetria Oculta do Amor – Por que o amor faz os relacionamentos darem certo/ Gunthard Weber e Hunter Beaumont. Editora Cultrix, 2006


Hellinger, Bertt. Meu trabalho. Minha vida - A autobiografia do criador das Constelações Familiares. Hanne Lore Heilmann; tradução Karina Janini. - São Paulo: Cultrix, 2020.


Jung, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Tradução: Dora Ferreira da Silva.21 ed. Petrópolis, Vozes, 2008.


Shubert, René. Texto publicado por René Schubert na plataforma Movimento Sistêmico em 2020 - https://www.movimentosistemico.com/post/aos-meus-pais-palavras-m%C3%A1gicas


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